quinta-feira, 18 de junho de 2009

Quanto vale um homem?


Conheci o Sr. Brandão, como era chamado na empresa onde trabalhava (seu nome completo era Antonio Pereira Brandão), em março de 1982, recém-chegado a Recife, vindo de minha cidade natal, Caruaru, a 120 Km da capital pernambucana. Foi a quem me dirigi para uma entrevista de emprego, naquela tarde. A entrevista foi exaustiva. Após cada pergunta respondida com a certeza e os conhecimentos que eu dispunha, era interpelado com um olhar impávido, com a seguinte pergunta: “Tem certeza do que está dizendo?”, buscando algum titubeio de minha parte.

Quatro dias após, fui confirmado na vaga e começava ali uma grande amizade. Eu, um jovem de 20 anos, recém-aprovado na faculdade de Economia, da Universidade Católica de Pernambuco e aquele senhor, com idade de ser meu avô, à época com cerca de 65 anos.

Com o passar dos dias, o trabalho ali desempenhado, no Setor de Contabilidade de uma grande indústria do ramo de alimentos, deu frutos. Os controles implantados permitiram que fosse descoberta uma fraude, de responsabilidade do encarregado do Setor de Contas a Receber. Mais tarde, outros procedimentos implantados, deram mais celeridade e confiabilidade às informações.

O Sr. Brandão elegeu-me seu confidente para os assuntos empresariais e também para os pessoais, vez por outra desabafando sobre problemas internos da empresa ou problemas com filhos, netos ou entre filhos e noras. A amizade se estendeu à sua adorável esposa, chamada carinhosamente de Lalu, quando me levava para almoçar em sua casa, onde à mesa, uma sineta chamava os empregados à servirem.

Foi ele o responsável pela minha permanência naquela empresa, quando, três meses após minha admissão, ter recebido uma proposta profissional mais vantajosa. Através de seu empenho, a diretoria da empresa não apenas garantiu a minha permanência na empresa, como dobrou o salário que recebia.

Uma cirurgia cardíaca de emergência, com sequelas permanentes, diminuíram-lhe a lucidez e a perspicácia profissional, com repercussão no seu desempenho profissional, o que lhe doía profundamente. Foi, pouco a pouco, caminhando para o ostracismo dentro da própria empresa, o que comprometeu também o seu padrão de vida.

Em 1988, no ano em que casei, ele já enfrentava uma situação financeira adversa. Convidado para a minha cerimônia de casamento, não pode comparecer, mas antecipadamente, deu-me um envelope com uma certa quantia em dinheiro, como “presente de casamento”, desculpando-se pela importância que considerava irrisória. Mas não era.

Ambos saímos da empresa praticamente na mesma época. Eu, para tocar adiante a empresa de assessoria empresarial que acabara de abrir, juntamente com mais dois colegas, também remanescentes da faculdade de Economia. Ele para recolher-se à sua casa, vencido pelo desânimo, pela diabetes, pelas sequelas da cirurgia.

Vez por outra o visitava e ainda era convidado para os almoços, agora bem mais frugais que nos áureos tempos.

Pouco tempo após casado, cerca de 3 anos depois, veio a crise e, em seguida, a inevitável separação. Enfrentei um período particularmente difícil, pois não havia casado para me separar em seguida. Tinha grandes planos para a vida que, infelizmente, não eram compartilhados pela pessoa que escolhi para casar.

Mas para mim era muito difícil admitir esse “fracasso” diante das pessoas. E daí por diante, evitei, talvez inconscientemente, rever aquele senhor, para não dar testemunho do que eu via até então, como um fracasso pessoal.

Alguns anos depois, ligou-me o antigo presidente daquela empresa onde trabalhamos, informando de seu falecimento. Fui à missa de sétimo dia e ao encontrar a viúva, tenho até hoje gravado na memória, o que ela me disse naquele momento: “Oh meu filho, você sumiu! Ele falava sempre em você, reclamando sua ausência”. Aquela frase teve efeito de uma bala de canhão me transpassando. Senti-me envergonhado, fraco, inútil, impotente e, acima de tudo, covarde.

Ficou a lição de que “os momentos são únicos e que não podemos deixar para vivê-los amanhã, pois o que importa é o presente”.

“Viver o momento presente”. Certamente não é à toa que tem esse nome.

Vez por outra me vem à memória a imagem do Sr. Brandão. E nesses momentos, faço apenas o que me é possível fazer hoje: rogo à Deus por seu “descanso eterno” e experimento um enorme sentimento de gratidão por tudo o que ele representou e proporcionou em minha vida. Em paralelo, me confronto com meu "ato covarde", que serviu-me de lição até os dias atuais.

Foto: Olhares.com

Recife - PE

15 comentários:

  1. Nossa! Que história!! O Sr, brandão esteja onde estiver tem muito orgulho se ti! Com certeza!
    Primeira visitante do blog?? hehehe dúvido muito, mas a primeira a comentar! Parabéns por mais este projeto!! Tenho certeza de que vai ser um espaço ótimo!

    beijão amigo,

    ResponderExcluir
  2. Comovente a história, pensando ... ela me remeteu as palavras de um monge tibetano que compartilho com você:
    "No ano há dois dias que realmente você não consegue saber deles".
    O primeiro é o dia de ontem, pois já é passado, você não pode voltar atrás e também não pode modificar aquilo que já foi feito ou foi dito.
    O segundo é o amanhã, pois este é o futuro e este pertence a Deus".
    Logo, para compensar tudo isso, Deus nos dá o dia de hoje, o qual Ele sabiamente deu o nome de presente.
    Pois é justamente isso que nós temos todos os dias apesar dos problemas:
    Um Presente Divino uma Dádiva de Deus - A vida!


    Então, espero que o seu "presente" , o "hoje", seja exatamente aquilo que você sempre deseja receber, e considere, que algumas situações cumprem o papel dos seixos, que é no atrito ficam redondinhos.

    Parabéns por esse novo espaço e obrigada por ter me avisado dele.

    beijo

    Silvia

    ResponderExcluir
  3. Uma história triste.Mas, ainda assim é uma bela história.Me senti envergonhada por reclamar tanto da vida.Desperdiço muito tempo com as frustrações do passado, e com ansiedades futuras.Minha mãe diz que eu sou que nem peru: Morro na véspera.rsrs
    Espero que um dia eu compreenda o real significado de "viver o agora".
    Parabéns pelo novo blog.Sem dúvidas, também serei uma seguidora fiel desse aqui.

    Sucesso!

    Indira Lima

    ResponderExcluir
  4. Agostinho,
    Parabéns pelo seu novo blog.
    O Salada já nos prende diariamente pela sua grande diversidade e esse vai nos prender pela emoção.
    Gostamos demais.
    Jorge

    ResponderExcluir
  5. Sr. Agostinho que post lindo,pra começar um novo espaço.
    Adorei e vou seguir. Gosto de ler teu blog o salada, porque cada dia tem algo diferente e divertido ireverente rs.
    Beijos n'alma meu querido.
    Amigo virtual.

    ResponderExcluir
  6. então ta esperando?
    Morde nem!!

    rsss
    esse senhoro parce ser muito simpatico to acompanhando vc ta, xeros

    ResponderExcluir
  7. Oiii Agostinho...

    Gostei desse blog também...há momentos interessantes e importantes na vida que jamais serão esquecidos!

    bjs mil

    ResponderExcluir
  8. Pois é. Às vezes não nos damos conta do quanto somos importantes para algumas pessoas.
    Muitas vezes,por vários motivos, nos descuidamos daquilo que é verdadeiramente importante nesta vida.
    Bons amigos são difícieis de encontrar mas se são amigos de verdade com certeza também entenderão nossas possíveis falhas ou até mesmo momentos de fraqueza ou covardia, como você mesmo disse. O importante é que nem você nem ele se esqueceram um do outro e hoje, com esta merecida esta homenagem você pode, mesmo em planos diferentes reencontrar seu velho amigo e dizer a ele o quanto você o considera e quão grande é sua admiração por ele.
    Òtimo final de semana.
    Grande abraço
    angel


    Ah, adorei seu novo espaço.

    ResponderExcluir
  9. cantinho novo ?

    ^^

    amei a historia. triste e comovente

    ResponderExcluir
  10. meus olhos estão marejados! Sério mesmo!

    Há uma lição muito importate nessa história. O quanto não percebemos que por coisas como vaidade, orgulho, desdém, ignoramos valores como o amor, a sensibilidade. é muito melhor ver um sorriso sincero de alguém que é importante para nós do que manter a pose. Isso me faz pensar muito. Tem vezes que eu faço isso :~~ Mas isso me faz mal de verdade e depois corro atrás, mas uma lágrima já pode ter escorrido...

    ResponderExcluir
  11. Que linda essa foto e muito tocante a história. As adversidades da vida ou o proprio egoísmo nosso faz com que nos distânciamos daqueles que são realmente importantes.
    Principalmente as pessoas mais velhas que temos tanto o que aprender.
    Temos que viver o hoje, pois o amanhã realmente pode ser tarde demais.

    :*

    ResponderExcluir
  12. Gostei do seu blog, meu amigo! Sou Fellipe, moro em Florianópolis, SC, estudo administração...quase me formando...e tambem gosto de viajar...e escrever blog...:) Um abraço...e continue ai...tudo de bom

    ResponderExcluir
  13. Meu Querido Amigo do Coração

    Tenho certeza que por onde tu passes... semeias amizades... amor... e carinho... isto é o que me transmitiste desde nosso primeiro contato virtual...
    Esta é a tua missão... ou sina... pois... “és responsável por aquilo que conquistas”...

    TeAmo

    Bjs.

    ResponderExcluir
  14. Como prometi, comecei a ler agora, desde o princípio, e adorei...
    Parabéns Agostinho...

    Beijos da Cê

    ResponderExcluir

Seu comentário será bem vindo! Obrigado!