sexta-feira, 3 de julho de 2009

Pega ladrão!



Ao contrário do que acontece nos grandes centros urbanos, Recife não é, ainda, uma cidade de todo desumanizada. Ainda ontem à noite, quando saía do escritório em direção à universidade presenciei um fato engraçado que me levou a essa feliz conclusão.

Era hora do “rush” e a Pracinha do Diário apinhava-se de gente que ia e que vinha absortos em seus pensamentos, como todas as pessoas que correm sempre em direção a não sei o que, fato comum nas grandes cidades. Ali, naquele burburinho, os josés, joões e marias não percebiam quem passava ao seu lado, como se cada um só existisse em si mesmo. De repente, um grito: Pega ladrão! – Que bom, pensei, ainda existe alguém que olha quem passa ao seu lado, principalmente se for uma descuidada dama levando sua bolsa ou até mesmo um executivo, que exibe descuidadosamente sua carteira.

Aquele grito gerou uma espécie de ligação em série de outros gritos, por onde o gatuno corria desvencilhando-se e levando consigo “o fruto do seu trabalho”. Na verdade nenhuma daquelas pessoas estavam preocupadas em segurar o ladrão, pois lhes faltava coragem. Porém, o “ato fisiológico” de gritar os satisfazia plenamente.

Os olhares convergiam em direção à Rua Diário de Pernambuco, local por onde o gatuno fugira, num ato de solidariedade à pessoa roubada que, àquela altura, nem interessava quem poderia ser. Outros, mais distantes do local, davam gritos de incentivo aos que corriam atrás do larápio. O menino do cafezinho, figura comum no dia a dia da cidade, destaca-se ao sair correndo em meio a todos e gritando em tom de brincadeira: “Pega o honesto!!! Pega o honesto!!! – Um ônibus apinhado de pessoas que passava pela pracinha naquele momento, mostrava uma cena pelo menos engraçada, senão grotesca: os passageiros de pé e com as cabeças fora das janelas para melhor contemplarem o acontecimento, davam a idéia de que o coletivo estava tão cheio a ponto de que os passageiros estavam sendo impelidos pelas suas janelas.


Por alguns minutos observei cada uma destas cenas com eventual interesse. A pracinha havia parado; os transeuntes olhavam em direção à Rua Diário de Pernambuco e faziam os mais diversos comentários com o primeiro que passava ao seu lado. Por alguns minutos as pessoas ao menos se comunicavam…

Depois, como todos os outros, retomei o meu caminho e também eu tornei-me um autômato entre todos os demais.

Escrito em maio de 1984

Recife - PE

7 comentários:

  1. Qua bacana que você faz gastronomia por puro prazer! legal mesmo! que coragem!

    É violência é muita loucura, aqui em SP é muita multidão muitas vezes não sabemos que furtou nossas coisas.

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  2. Ah, por que eu não estava lá com meu super roller!! Eu teria pego o ladrão!!!
    Acho que daria um dinheirinho para ele né...por quê correu tanto... coitado
    Mas pegava a bolsa de volta!!

    Mas essa cena que tu descrevestes, das pessoas absortas em seu pensamento... é super interessante, observava-a en quanto também participava dela todos os dias quando trabalhava... sinceramente eu gostava de observar aqueles momentos da hora do "Rush", hehehe

    Beijão!!

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  3. Coincidencia pq escrevi justamente sobre essa mania que a gente tem de nao enxergar aqueles que nos rodeiam.
    Bjs

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  4. gostei mesmo do texto!
    é engraçado ver o que faz as pessoas de "conectarem"...um ladrão.Mas ver a reação das pessoas e algumas prestanto solidariedade é bem divertido mesmo. Adoro observar pessoas.

    obrigada pela ida ao meu blog, volte sempre, tbm voltarei aqui, ta to seguindo!
    beijos

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  5. Hahaha, e no final das contas ainda não pegaram o ladrão...Como disse a Cary, realmente é hilário como as pessoas se conectam, aliás através de quê...
    Parabéns pelo blog, com certeza estou participando. Abraços e espero sua visita.
    =*

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  6. Excelente crônica. Não sei se vc conhece Uma vela para Dário, de Dalton Trevisan, ela passeia por um assunto assim, só que ele fala da morte de um transeunte. Esses assuntos me tocam, sempre!

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